O Seminário
O Avesso da Psicanálise foi proferido por Jacques
Lacan em 1969/1970. Menos de uma década depois,
em 1978, no Rio de Janeiro, MD Magno realizava seu
Seminário Ad Sorores Quatuor – cujo texto
chega agora ao leitor –, dedicado ao tema dos
Quatro Discursos então propostos por Lacan.
Às Quatro
Irmãs, inscrição encontrada
em antiga tabuleta romana em modo de anunciar oferta
dos serviços profissionais daquelas que ganhavam
com seus corpos (quae corpore merent), serve ao autor
de mote para investigar as maneiras como se “incorporam”
os discursos apresentados por Lacan. Propor a investigação
dessa “incorporação” é
buscar a razão ou modo de construção
dos quatro discursos, ou seja, sua arquitetura.
Às Quatro
Irmãs, portanto, como quem diz às quatro
letras (S1, S2, $, a) que, em giratório nos
quatro lugares (agente, verdade, outro, produção),
por suas diferentes posições, escrevem
as possibilidades discursivas do falante. O que se
busca, então, é o entendimento da proposição
lacaniana de haver certas relações fundamentais
estáveis que percorrem a multiparidade dos
enunciados e de que é possível fornecer
um aparelho escrito, no sentido de desconteudizado,
matemizado e abstraído. Insiste-se na função
do Impossível que percorre os quatro discursos,
que só têm inteligibilidade pela hipótese
psicanalítica do Inconsciente sexual, tornado
arché de qualquer discurso ou lógica.
Aí reside
o ponto alto deste livro: a lição lacaniana
do sujeito como puro corte – secção
ou sexão, portanto –, e do significante
como pura escansão, é aqui apresentada
a partir de uma topologia do espelho. Não se
trata da função especular, necessária
ao entendimento lacaniano do sujeito como instalação
da ordem simbólica, auxiliado pelo processo
identificatório a partir da experiência
da imagem do corpo como unidade coerente imaginária.
É, antes, a lógica do espelho proposta
como banda de Moebius, objeto topológico que
permite anotar, como modelo de operação
da mente, a competência originária de
virar ao avesso o que quer que se apresente a essa
superfície unilátera. Temos, portanto,
o espelho agora topologicamente concebido como a lógica
do Real.
No percurso do
autor de construir a Nova Psicanálise, este
livro configura um momento importante, ao assimilar
a noção psicanalítica de Real
ao espelho enquanto função de Impossível
e desejado atravessamento definitivo, que não
há, experiência originária que,
ela sim, viabiliza e suscita toda e qualquer travessia.