Com
generosidade, a autora nos presenteia com a história
de uma família de alemães que atravessa
três séculos. Pela peculiaridade da época
(1860-2004) e da situação geográfica
na Europa, onde estão inseridos os personagens
do livro, tomamos contato com cinco gerações
que, no decorrer das suas vidas, participam de grandes
acontecimentos. A história pessoal se confunde
com a história mundial.
Desse
modo, do ponto de vista das transformações
sociais e mentais, percorremos a Primeira Guerra Mundial,
a Revolução Russa de 1917, a Revolução
Alemã de 1918, a Segunda Guerra Mundial, o
nazismo, o socialismo, o comunismo, a luta pela sobrevivência
numa Europa em guerra e pós-guerra, as tensões
e contradições por serem judeus alemães,
a fuga em 1936 para o Brasil sob o Estado Novo, o
contato com o universo artístico e a instalação
do Teatro Brasileiro de Comédia, a criação
de novos vínculos e referências num país
estrangeiro, sua permanência até hoje.
E, após este longo percurso, o assentamento
da autora num pensamento psicanalítico de ponta,
que reconhece, acolhe e dá sentido aos sintomas
contemporâneos.
Este
é um daqueles livros contadores de história
que nos transportam para várias temporalidades,
onde ficamos completamente absortos na narrativa dos
acontecimentos e suas vicissitudes. Sobretudo, por
mostrar com simplicidade e delicadeza os eventos sob
o ângulo de quem, vindo para o Brasil num momento
crucial para a definição dos rumos que
o país tomaria na segunda metade do século
20, sofreu as ações e estava diretamente
concernida pelo que ocorria.
É
provavelmente a história de muitas Claras,
Irmgards, Susannes, Ernests, Fritzs, Reinaldos, Pedros
e tantos outros que se reconhecerão em algum
momento dessa narrativa. Uma história rica
de detalhes, associações, acontecimentos
históricos e, principalmente, de gente corajosa,
determinada, muito além de imigrante.