Teólogos
medievais retorceram suas mentes até o enxuto
na perquirição do sexo que os ANJOS
poderiam ter. Só a Psicanálise (de Freud)
e só depois de Lacan (com a inquietação
equivocante do seu penúltimo Seminário)
pode aprontar para eles alguma solução
- com certo atraso, é bem verdade, mas o óbvio
é difícil de se ver.
O
sexo do corpo (biológico, animal), adrede preparado
para a reprodução, não é
o sexo de que se fala, não é o sexo
que a gente faz conforme o empuxo da repetição.
Aquele, já está feito. Este, está
sempre por se fazer. Por isso é que, dele,
a gente fala. Porque é a partir do que se fala
que toda gente o faz. Ora, é a gente que fala:
os anjos, somos nós.
Daí
que os dois sexos efetivos dos ditos seres-vivos da
chamada Natureza (e há diversos não-sexuados
ou bi-sexuados também) que comparecem no "macacão"
(que vestimos) do nosso corpo biológico de
falantes (de seres mais-que-vivos ou sobrenaturais)
não são os nossos sexos (nós
que falamos dos nossos como dos deles). Pois os nossos,
efetivamente, são três - com mais um
quarto, de lambuja, que só nos serve para fazermos
os outros três.
É
que nós outros, anjos falantes de direito e
de fato, estamos inseridos, no seio de tudo que há,
não de modo proporcional a esses seres, mas
sim compatíveis com a estrutura de plenitude
do que Há. Digamos que, com nossos corpos de
macaco, sustentamos o santo espírito de Deus.
Com
o que a Psicanálise, herdeira soberana dos
encargos da velha Filosofia, não deixa de ter
sua Teologia, sua Ontologia, sua Cosmologia - apontando,
em seu a-teísmo, que Deus é Inconsciente
como é Inconsciente o próprio Haver.
E assim, pode recolher qualquer espécie de
saber, querendo dialogar com toda sorte de dizer.
Em
suma: podendo extrapolar(-se) do cinturão (dito
terapêutico) de sua clínica divanesca
para a amplitude arejada de sua Clínica Geral.